Tratamento com células CAR-T reduziu a rejeição imunológica e abriu caminho para transplantes renais em pacientes considerados incompatíveis com praticamente qualquer doador.
Uma terapia genética começa a mostrar resultados promissores em transplantes de órgãos. Pesquisadores da Alemanha e dos Estados Unidos conseguiram realizar transplantes de rim em três pacientes que, até então, eram considerados praticamente impossíveis de serem transplantados devido ao alto risco de rejeição imunológica.
Os resultados foram publicados na revista científica New England Journal of Medicine e estão sendo vistos por especialistas como um avanço capaz de transformar o tratamento de milhares de pessoas que aguardam um rim compatível.
Pacientes sem opções
Os três pacientes tinham o que os médicos chamam de sistema imunológico “altamente sensibilizado”. Isso significa que seus organismos produziam grandes quantidades de anticorpos capazes de atacar tecidos considerados estranhos, incluindo órgãos doados.
Na prática, essas pessoas podem passar anos na fila de transplantes sem encontrar um doador compatível. Muitas acabam permanecendo dependentes da diálise por longos períodos ou morrem antes de receber um órgão.
Segundo os pesquisadores, cerca de 5% a 10% das mais de 90 mil pessoas que aguardam um transplante renal nos Estados Unidos se enquadram nessa condição.
Como funciona a terapia CAR-T
A estratégia utilizada foi baseada na tecnologia conhecida como CAR-T, já aprovada para o tratamento de diversos cânceres hematológicos.
O procedimento começa com a retirada de células T do próprio paciente, células de defesa do sistema imunológico. Em laboratório, elas são geneticamente modificadas para reconhecer e destruir células responsáveis pela produção dos anticorpos que causam a rejeição.
Após serem reprogramadas, essas células são reinfundidas no organismo.
No caso dos pacientes transplantados, as células CAR-T foram direcionadas principalmente contra a proteína CD19, presente em células produtoras dos anticorpos problemáticos. Em alguns casos, também foi utilizado um alvo adicional chamado BCMA.
A história de uma paciente
Um dos casos descritos envolve uma mulher alemã na faixa dos 30 anos que já havia recebido um transplante renal anteriormente. Após cerca de dez anos, o órgão deixou de funcionar.
Sem rins funcionais, ela desenvolveu hipertensão arterial grave e insuficiência cardíaca. A rotina de diálise a deixava exausta e a impedia de trabalhar.
Ao longo dos anos, nove potenciais doadores foram considerados incompatíveis devido ao alto risco de rejeição.
Após receber a terapia CAR-T em 2024, seus níveis de anticorpos caíram significativamente. Cinco meses depois, ela finalmente pôde receber um novo rim.
Mais de um ano após o tratamento, o órgão continua funcionando adequadamente. Segundo os médicos, ela retomou suas atividades profissionais e atualmente trabalha treinando crianças em ginástica acrobática.
Resultados semelhantes nos Estados Unidos
O que muda para o futuro?
Especialistas que não participaram das pesquisas avaliam que a descoberta pode representar uma mudança de paradigma nos transplantes renais.
A expectativa é que, se os resultados forem confirmados em estudos maiores, a terapia possa se tornar parte do tratamento padrão para pacientes altamente sensibilizados nos próximos anos.
Além de ampliar as chances de transplante, a técnica pode reduzir o tempo de espera e melhorar significativamente a qualidade de vida de pessoas que dependem da diálise para sobreviver.
Embora ainda esteja em fase experimental para essa finalidade, os resultados iniciais reforçam o potencial das terapias celulares personalizadas de ultrapassarem o campo do câncer e passarem a desempenhar papel importante em outras áreas da medicina, incluindo transplantes e doenças autoimunes.
Fonte: Diário do Pará – https://diariodopara.com.br/dr-responde/terapia-genetica-permite-transplante-de-rim-em-pacientes-sem-chances/

