Em Passo Fundo, 457 pacientes vivem a cansativa rotina da hemodiálise e diálise nos dois hospitais do município. Dentre eles, 115 estão na lista de espera por um transplante de rim, que soma 1.175 pessoas no RS.
O tratamento médico substitui a função principal do órgão quando este perde a capacidade de filtrar o sangue. O procedimento ambulatorial é realizado no Hospital de Clínicas (HC) e Hospital São Vicente e Paulo (HSVP).
Essencial para quem possui insuficiência renal aguda grave ou crônica terminal, a hemodiálise tem efeitos colaterais e pode causar fraqueza, falta de ar, tontura, desequilíbrio da pressão arterial, enjoo e palpitações.
O tratamento remove toxinas como ureia, creatinina e outras impurezas. Retira o excesso de líquido, e corrige reequilíbrio de sais, fazendo a função dos rins — explica o responsável técnico do serviço de hemodiálise do HVSP, Péricles Serafim Sarturi.
A duração de uma seção é em torno de quatro horas por dia, e geralmente acontece três vezes por semana. Apesar das máquinas serem ocupadas majoritariamente por idosos, pessoas de todas as idades podem precisar do tratamento.
Mudança de rotina
A agricultora Rosemar Bertão, 43 anos, enfrenta o problema há um ano e sete meses, quando descobriu uma vasculopatia e perdeu toda a função renal. Ela iniciou na hemodiálise tradicional, mas acabou migrando para a diálise peritoneal, que é feita em casa pelo próprio paciente:
— No início eu estava muito debilitada, me considerava no fundo do poço. Hoje, quando eu me conecto na máquina, eu vejo vida, é assim que eu recupero minha energia. Tem que ter uma força de vontade muito grande. Eu fiz amizade com o meu catéter.
O autônomo Guilherme Ricardo Caruso, 41 anos, também mudou de rotina para fazer o tratamento, há três anos. Segundo ele, o consumo excessivo de refrigerantes e embutidos por vinte anos o levou a perda de um rim, e o comprometimento de 15% do outro órgão.
— Na minha primeira seção, eu pensei “o que eu fiz com a minha vida, com a minha saúde?”. Fiquei depressivo. Mas agora já me acostumei um pouco — diz.
Desafio do transplante
Na fila do transplante, muitos pacientes aguardam com a esperança de não depender mais da hemodiálise. No entanto, o procedimento nem sempre funciona, explica o enfermeiro responsável pela Unidade de Terapia Renal Substitutiva do HC, Tarzie Hübner:
— Não são todos pacientes que podem transplantar. O transplante é complexo, arriscado. A pessoa precisa cumprir requisitos rigorosos de saúde e de compatibilidade para sair da fila de espera, acompanhamento no pós e mesmo assim pode dar errado.
A rejeição aconteceu duas vezes com a paciente Joelen Roberto, 36 anos, que passou mais da metade da vida no tratamento renal. Nesse meio tempo, teve dois rins transplantados: um do pai e outro doado por um paciente falecido.
— Eu sou de Muliterno e venho toda semana para cá. É cansativo porque tem dias que eu passo mal nas viagens. Minha vida mudou aos 15 anos, com limites físicos e alimentares — relembra.
A paciente não teve sucesso nos procedimentos em razão de necroses arteriais — morte de tecido decorrente da interrupção do fluxo sanguíneo oxigenado — que levaram à recusa dos órgãos. Ainda assim, ela continua na espera por um novo rim.

