
Assembleia Legislativa promoveu audiência pública nesta segunda (9) com presenças especialistas da área. Evento está associado à passagem do Dia Mundial do Rim e expõe problema do custeio.
Com o propósito de ampliar o debate sobre a prevenção das doenças renais e discutir políticas públicas voltadas ao diagnóstico precoce e ao tratamento dos pacientes no Paraná, a Assembleia Legislativa realizou na manhã desta segunda-feira (9) audiência pública com médicos especialistas e representantes de instituições da área de saúde e profissionais que atuam no atendimento a pessoas com doenças renais. A atividade foi proposta pela Cristina Silvestri (PP) e está associada à passagem do Dia Mundial do Rim, que neste ano é comemorado no dia 12 de março, vem em reforço à campanha coordenada pela Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN) visando a prevenção de doenças como a Doença Renal Crônica (DRC), que afeta 10% da população mundial.
Dentre os especialistas presentes, o superintendente do Instituto do Rim do Paraná e presidente da Associação Brasileira de Centros de Diálise e Transplante no Paraná, Ricardo Akel; o presidente da Sociedade Paranaense de Nefrologia, René Santos Neto; a secretária da SPN, Maria Laura Neme; o presidente da Fundação Pró-Renal; o vice-presidente da Região Sul da SBN, Paulo Fraxino; e o coordenador da Câmara Técnica de Nefrologia do CRM, Ricardo Benvenutti. O presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia, José Moura Neto, participou por vídeo. A contenção de recursos destinados à área e a consequente limitação de acesso aos serviços especializados foram destacados durante os debates.
Autora da iniciativa, a deputada Cristina Silvestri lembrou que esta foi a terceira audiência pública realizada na Alep sobre o tema, reforçando o compromisso de ampliar a conscientização da população. Segundo ela, a doença renal é silenciosa e muitas vezes só é descoberta quando já está em estágio avançado. “Como agentes políticos, temos a obrigação de discutir políticas públicas, promover informação e garantir tratamento adequado para as pessoas que dependem da saúde pública”, afirmou. A parlamentar também ressaltou que o diálogo com entidades e especialistas tem gerado avanços. “Nesses três anos, tivemos conquistas importantes a partir das reivindicações apresentadas pelas associações e profissionais da área. Ao mesmo tempo, seguimos abertos a novas demandas, porque essa é uma luta contínua.”
Ela também anunciou conquistas ao longo dos três anos em que a Assembleia abraçou o pleito: redução de 50% na tarifa de água das clínicas; encaminhamento favorável para redução das tarifas de energia elétrica; e criação da frente parlamentar sobre o tema. A deputada Marcia Huçulak (PSD) também participou da audiência. Ex-secretária municipal de saúde de Curitiba, ela comentou sobre os desafios. “Um deles é o modelo de atenção. O outro é o financiamento, que nasceu historicamente subfinanciado, com hiatos enormes. Juntamente com isso, temos que lidar com o envelhecimento da população e com a falta de promoção do nosso sistema, que funciona no método reativo em vez de proativo. São vários os desafios, e trazer esses debates para cá ajuda na reverberação.

Grande incidência
Durante o debate, o médico nefrologista Ricardo Akel, superintendente do Instituto do Rim do Paraná e presidente da Associação Brasileira de Centros de Diálise e Transplante no Paraná, alertou para a grande incidência de problemas renais na população. Segundo ele, cerca de 1,2 milhão de paranaenses já apresentam algum estágio inicial de alteração na função dos rins, geralmente associada a doenças como diabetes, hipertensão arterial e obesidade. “A prevenção é sempre o melhor remédio. É preciso cuidar da função renal antes que a doença comprometa os rins e leve à necessidade de terapias como diálise ou transplante”, explicou. Ele também orientou que exames simples, como a dosagem de creatinina e o exame de urina, devem ser feitos periodicamente para detectar alterações precoces.
Ricardo Akel também apresentou dados de estudo elaborado pela consultoria Planisa, em parceria com a ABCDT, que apontam para um déficit estrutural no financiamento da hemodiálise no Sistema Único de Saúde (SUS). “O SUS paga, por sessão de hemodiálise R$ 240,97, enquanto o custo médio estimado do procedimento chega a R$ 342,00. Estamos falando de uma defasagem de aproximadamente 42%”, ressalta Akel, acrescentando que esse seria também o percentual de reajuste necessário para recompor o equilíbrio financeiro do serviço. “Quando analisamos a evolução da tabela do SUS ao longo dos anos, vemos um descompasso evidente entre o custo real do tratamento e o valor pago pelo procedimento. Essa defasagem acumulada compromete a sustentabilidade dos serviços e exige uma discussão urgente sobre o financiamento da diálise no país”, completou.
A realidade enfrentada pelas clínicas foi relatada pela médica nefrologista Sandra Mara Aguilar, do Instituto do Rim de Umuarama, unidade que atende pacientes da 12ª Regional de Saúde do Paraná. “Atendemos cerca de 95% dos pacientes pelo SUS. Recentemente, um vereador quis destinar verba parlamentar para ajudar a clínica com equipamentos, mas não pudemos receber porque somos privados. Poderíamos investir em máquinas e equipamentos importantes para o atendimento dos pacientes”, relatou. Já representante de cerca de 250 pacientes da 11ª Regional de Saúde, em Campo Mourão, alertou para o aumento do número de pessoas em estágio avançado da doença renal. “A população está envelhecendo rapidamente. Hoje temos cerca de 10 vagas disponíveis, mas aproximadamente 60 pacientes em estágio 5 que devem precisar iniciar diálise nos próximos anos”.
A médica nefrologista Maria Laura Neme, secretária da Sociedade Paranaense de Nefrologia, reforçou que a doença renal crônica já é considerada um problema de saúde pública mundial. Segundo ela, a enfermidade atinge, no mundo, cerca de 850 milhões de pessoas. “O grande desafio é que a doença renal geralmente não apresenta sintomas. Menos de 10% das pessoas descobrem o problema a tempo. Por isso, a prevenção e o diagnóstico precoce são fundamentais”, destacou.
A especialista explicou que um exame simples e de baixo custo pode ajudar na identificação precoce da doença. “A dosagem da creatinina é um exame acessível, pago pelo SUS, e deve fazer parte do acompanhamento regular da população, especialmente de pessoas com diabetes ou hipertensão. Esse exame precisa estar disponível nos postos de saúde como forma de rastreamento”, disse.
Miguel Carlos Riella, presidente da Fundação Pró-Renal, afirmou que as instituições amplificam as ações do governo, trazendo reivindicações, alertando para os problemas e ajudando nas campanhas de conscientização.
René Santos Neto, presidente da Sociedade Paranaense de Nefrologia, exibiu dados sobre os problemas renais, citando a doença será a 5ª maior causa de morte no mundo até 2040, citando que, hoje, já consome 3% do orçamento da saúde por causa de terapias tardias: “8.700 paranaenses dependem de diálise hoje no Estado, com 82% deles sendo atendidos pelo SUS. Isso só vai crescer com o envelhecimento da população, e precisamos estar preparados”. Hoje são 50 centros de diálise em 30 municípios no Paraná, com 14 centros transplantadores e 5.500 pessoas na fila esperando por um rim.
José Moura Neto, presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia, participou por vídeo e reforçou que “170 mil pacientes dependem da diálise para sobreviver. Sem isso, eles não sobrevivem. É um tratamento vital, contínuo e inadiável. Precisamos discutir o financiamento do tratamento, muito defasado na tabela do SUS e com clínicas sobrecarregadas.”
Apesar das dificuldades, o sistema de atendimento público no Paraná foi elogiado. “O Paraná tem um dos melhores sistemas de terapia renal substitutiva do Brasil, com clínicas bem estruturadas, profissionais qualificados e equipamentos modernos capazes de garantir qualidade de vida ao paciente e prepará-lo para um possível transplante”, complementou Ricardo Akel. No entanto, ele ressaltou que a defasagem da tabela do SUS, a falta de cofinanciamento dos estados e a necessidade de melhoria na atenção básica pelos municípios são pautas constantes.
Diagnóstico e impactos econômicos
Paulo Fraxino, vice-presidente da Região Sul da Sociedade Brasileira de Nefrologia, apresentou dados sobre o impacto econômico da doença e indicando que o atraso no diagnóstico, mesmo que por apenas um ano, aumenta em 40% o risco de o paciente atingir o grau 5, o mais grave; em 63% o risco de falência renal; e em 85% o risco de desenvolver doenças cardiovasculares graves. “Se não for procurado, o diagnóstico sempre será tardio. Somente com o uso de medicamentos fornecidos gratuitamente pelo SUS, quando o diagnóstico é precoce da doença até o estágio 3, conseguimos retardar em 10 a 15 anos a necessidade de diálise, o que representa uma economia muito grande, além de uma qualidade de vida inestimável ao paciente”, comentou.
De acordo com os dados apresentados, o custo do tratamento em diálise é de 50 a 70 vezes maior que o custo da prevenção. “Caso não modifiquemos o crescimento da doença com os medicamentos já disponíveis, até 2032 teremos 170% a mais de pacientes que necessitarão de diálise e 80% de aumento na necessidade de transplantes”, complementou.
Outros prejuízos econômicos foram apresentados pelo médico, como o absenteísmo (indicador que mede a ausência dos trabalhadores) e aposentadorias precoces. Segundo as estimativas, o dano ao PIB brasileiro entre 2024 e 2034 pode chegar a R$ 1,3 trilhão, com 4,6 milhões de trabalhadores retirados do mercado de trabalho e perda de R$ 8,7 bilhões em arrecadação de impostos.
Fonte: Redação, com informações da Alep e Associação Brasileira dos Centros de Diálise e Transplante (ABCDT).
Portal Pedro Ribeiro

