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Remédio que evita diálise para quem tem doença renal fica fora do SUS

A Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS) decidiu, durante reunião em 4 de dezembro de 2025, não incorporar a finerenona (nome comercial Firialta), medicamento usado para retardar a progressão da doença renal crônica (DRC) associada ao diabetes tipo 2. A recomendação preliminar, tomada por maioria simples, provocou reação de sociedades médicas e associações de pacientes.

A droga, registrada pela Anvisa em janeiro de 2023, é vista como uma das principais novidades no tratamento da doença renal associada ao diabetes. Nas farmácias, o medicamento é vendido, em média, por R$ 180 (10 mg) e R$ 210 (20 mg).

Por que a decisão preocupa

  • A DRC é considerada hoje uma das maiores crises silenciosas da saúde pública brasileira.
  • O país tem mais de 150 mil pessoas em diálise, das quais 31% fazem o tratamento porque desenvolveram doença renal devido ao diabetes.
  • Em 2024, o SUS gastou R$ 4,2 bilhões apenas com hemodiálise —terapia invasiva e de manutenção, aplicada quando o rim já falhou.
  • Mais de 27 mil brasileiros aguardam um rim na fila de transplante.

A finerenona age reduzindo inflamação e fibrose renal, mecanismos que aceleram a perda da função dos rins. Estudos clínicos mostraram que o medicamento reduz em 18% a piora renal (como falência dos rins) e diminui em 14% o risco de eventos cardiovasculares. Por esses resultados, já faz parte das diretrizes internacionais e está disponível em sistemas públicos de países como Canadá, Austrália e México.

O que pesou contra o medicamento

Apesar dos benefícios, a Conitec apontou incertezas nas evidências para alguns desfechos, além do alto custo inicial para o SUS. A estimativa de impacto orçamentário apresentada foi de R$ 112 milhões/ano, valor considerado acima do limite de tecnologias classificadas como “alto impacto”.

Durante a reunião, representantes destacaram o dilema financeiro. Um deles afirmou que a finerenona teria “efeito marginal” diante do custo elevado, enquanto outro defendeu que os recursos deveriam priorizar “serviços de assistência melhores” em vez de mais um medicamento. Também houve quem afirmasse que a análise apresentada “não reflete a realidade atual do sistema.

A reação contrária à decisão foi imediata. A consulta pública aberta pela Conitec recebeu 1.715 contribuições, sendo 97,3% favoráveis à incorporação. Associações de pacientes criticaram a decisão por ampliar desigualdades. Representantes lembraram que o custo de um mês de hemodiálise no SUS (cerca de R$ 2.880) pagaria dois anos de tratamento preventivo com finerenona.

A Fenapar (Federação Nacional das Associações de Pacientes Renais) classificou a recomendação como “injusta” e “mantida à custa de vidas”. A Sociedade Mineira de Nefrologia chamou a decisão de “antiética e desconectada da realidade”.

A SBN (Sociedade Brasileira de Nefrologia) divulgou comunicado afirmando ser contrária à recomendação da Conitec. A entidade esteve representada na reunião por Viviane Calice, diretora do Departamento de Epidemiologia e Prevenção de Doença Renal, que votou a favor da incorporação.

Segundo a SBN, há evidências suficientes de que a finerenona beneficia pacientes brasileiros com DRC e diabetes tipo 2, tanto em desfechos renais quanto cardiovasculares. A entidade enviou um ofício ao Ministério da Saúde pedindo a revisão da decisão, “reforçando o compromisso histórico com o acesso equânime a tratamentos eficazes e baseados em evidências”.

Sem a incorporação pelo SUS, a finerenona continua acessível apenas na rede privada —inviável para grande parte dos pacientes renais. Para as associações, a consequência é direta: mais pessoas progredindo para diálise, mais internações e mortes evitáveis, e o que elas pedem é por uma reversão da decisão.

Fonte: BOL – UOL

 

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