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O que 35 anos de história revelam sobre a crise da diálise no Brasil

Por Leonardo Barberes

Completar 35 anos de história não é apenas um marco simbólico para uma entidade que representa clínicas de diálise em todo o país. É, sobretudo, uma oportunidade de avaliar com franqueza o caminho percorrido, os avanços conquistados e, principalmente, os desafios estruturais que persistem – muitos deles agravados ao longo do último ano.

Em 2025, a Associação Brasileira dos Centros de Diálise e Transplante (ABCDT) viveu um período que sintetiza, de forma clara, a realidade da diálise no Brasil: um setor essencial para a vida de milhares de pessoas, altamente regulado, tecnicamente complexo e, ao mesmo tempo, submetido a um modelo de financiamento que já não se sustenta.

Ao longo de mais de três décadas, a ABCDT deixou de ser apenas uma representante setorial para se consolidar como um ator institucional relevante no debate sobre políticas públicas em saúde renal. Esse amadurecimento ficou evidente em 2025, quando a entidade esteve presente de forma contínua nas esferas municipal, estadual e federal, atuando tanto na construção de soluções quanto na denúncia responsável de riscos concretos à assistência.

O ano começou com alertas graves. Atrasos de pagamento por parte de gestores públicos, ameaça de fechamento de clínicas em diferentes estados e desigualdades regionais no financiamento da terapia renal substitutiva colocaram em evidência um problema antigo: a distância crescente entre o custo real da diálise e o valor pago pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Em alguns casos, a mobilização institucional evitou desfechos ainda mais críticos, como ocorreu em estados onde houve complementação de recursos ou decisões judiciais que garantiram condições mínimas de funcionamento às clínicas.

Mas 2025 não foi apenas um ano de reação a crises. Foi também um período de produção de evidências. Em parceria com a Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), a ABCDT lançou estudos que demonstram, de forma técnica e objetiva, a defasagem histórica da Tabela SUS para a diálise. Esses dados não apenas qualificaram o debate público, como fortaleceram o diálogo com o Congresso Nacional, o Ministério da Saúde e órgãos de controle.

A intensificação da atuação junto à Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Serviços de Saúde, a participação em audiências públicas e reuniões técnicas, além da inclusão da diálise em programas estratégicos do Ministério da Saúde, mostram que a pauta da saúde renal passou a ocupar um espaço mais consistente na agenda institucional do país. Trata-se de um avanço importante, ainda que insuficiente diante da urgência do problema.

O segundo semestre de 2025 foi particularmente emblemático. A crise da diálise ganhou visibilidade nacional, não por acaso, mas porque a realidade se tornou impossível de ser ignorada. Restrições à admissão de novos pacientes, risco de interrupção de tratamentos e pressão financeira crescente sobre as clínicas revelaram um sistema operando no limite. A campanha “Diálise é Direito. Reajuste é Dever” e, posteriormente, “Viver é Urgente – A Diálise Não Pode Esperar” traduziram em linguagem acessível aquilo que os números já demonstravam: sem financiamento adequado, não há sustentabilidade possível.

Chegar aos 35 anos nesse contexto impõe uma reflexão inevitável. A diálise não pode continuar sendo tratada como uma política emergencial, acionada apenas em momentos de crise. Trata-se de uma terapia vital, contínua, previsível em termos de demanda e absolutamente dependente de planejamento, investimento e diálogo permanente entre poder público e prestadores.

A história da ABCDT mostra que a mobilização técnica, institucional e responsável gera resultados. Mas também deixa claro que os desafios atuais exigem um novo patamar de compromisso. O reajuste da Tabela SUS, o cofinanciamento estadual, a segurança jurídica e a previsibilidade econômica não são pleitos corporativos – são condições básicas para garantir que pacientes em diálise continuem vivos, com dignidade e acesso ao tratamento.

Em 2025, reafirmamos esse compromisso. Seguiremos atuando com dados, diálogo e firmeza. Porque, 35 anos depois, a nossa missão permanece a mesma: defender a vida, fortalecer o sistema e garantir que a diálise no Brasil seja, de fato, um direito assegurado e sustentável.

Leonardo Barberes é vice-presidente da ABCDT.

Fonte: Medicina S/A

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